Finalmente uma opinião equilibrada sobre a chacina de Realengo. Políticos em nada e a própria mídia em quase nada estão colaborando para prevenir situações como essa. Leia o artigo abaixo.
Não dá para ficar calado.
O que pensam os especiais sobre o "monstro"?
Meu email ficou lotado com a tragédia de Realengo. Mas não de amigos horrorizados com o absurdo da situação ou questionando a segurança pública. Foi de mães, parentes e jovens portadores de necessidades especiais mentais que comigo conviveram quando coordenei a parte de comunicação da campanha do Romário. Me vendo como um elo entre eles e a imprensa, desabafaram e cobraram muiiito da imprensa. São depoimentos emocionantes. Confesso que levei dois dias para postar algo no face, porque o que aconteceu é uma barbárie e indefensável. Mas o que eles cobram é o que ainda não foi dito nas coberturas: a atitude, ao longo dos anos, da escola e dos parentes. No caso da escola, percebendo que ele era diferente - e esta percepção está em vários depoimentos de colegas e professores - não envolveram a família, a rede de saúde pública e a própria secretaria de educação, para que o jovem fosse acolhido e tratado, a fim de se evitar tal tragédia. No caso dos parentes do jovem, o total abandono, desde que nasceu, filho de mãe com problemas mentais - a questão genética já era um indício de que o menino tinha de ser monitorado. Mesmo sabendo - e foi o que o irmão admitiu, que ele tinha um comportamento estranho - não foi além de marcar uma consulta com um psicólogo.
Diz uma mãe: "Incluir dá trabalho, nos toma o tempo que nunca temos, dói, nos rasga a alma por dentro. Na sociedade com pressa para o sucesso, ninguém acolhe". Também há mensagens de jovens especiais que conheci e cujas mentes, desorganizadas em momentos de estresse, se questionavam se um dia, por serem especiais, poderiam fazer o mesmo. "Acho que no fundo, por ser meio esquisito, sou um monstro. Não paro de pensar que posso causar mal a alguém", relatou um jovem, jogando por terra anos e anos de conquistas no seu desenvolvimento na saúde mental. E aí, aliada a outra experiência recente que tive quando preparei um material para divulgação (não do Romário, a quem não mais atendo) sobre o Dia Mundial de Consciência do Autismo, percebi que o poder público pode e deve manter uma rede de educação e saúde - aliás, todos os órgãos - interligados na comunicação de casos de deficientes mentais. Na cidade que divulgo, é impressionante como cada caso de especial é detalhadamente conhecido por todos os órgãos. Vi uma diretora de escola ligar para o responsável pelas clínicas odontológicas públicas pedindo para que se pensasse em desenvolver uma escova de dente com cabo anatomicamente adaptado aos autistas mais graves, pois não tinham coordenação motora e hoje, depois de anos de conquista, eles já tentavam escovar os dentes sozinhos, tendo dificuldade apenas em segurar o cabo. Lá há centenas de autistas e esquizofrênicos gravíssimos, mas todos estão inclusos e monitorados.
Concordo com Fábio Lau quando diz "O assunto deve ser tratado com profundidade porque há de servir de alerta. A questão está em diagnosticar. E talvez este seja o maior pecado".
Vamos ficar passivos diante de tamanha monstruosidade em Realengo nos limitando a nos horrorizar e detalhar as cenas de barbárie ou vamos cobrar das autoridades públicas e das escolas o acolhimento obrigatório por parte deles?
O "monstro" já está morto. Mas uma política pública eficaz ainda nem nasceu.
Por: Leila Magalhães
quarta-feira, 13 de abril de 2011
Injustiça contra os filhos adotivos
Reproduzo aqui e-mail recebido no Observatório da Infância. Estou de pleno acordo com o Ricardo Medeiros.
Também estranhei a divulgação pela mídia do fato de ser o autor da chacina de Realengo filho adotado. O despreparo de alguns jornalistas é fato marcante. Infelizmente nosso espaço para reclamar, reagir e quem sabe corrigir é muito limitado. Não dá para ficar calado.
Injustiça contra os filhos adotivos
Um crime bárbaro aconteceu no Rio de Janeiro na semana passada. A imprensa correu para mostrar todos os detalhes, e a informação de que seu autor era filho adotivo logo foi dada. Qual a razão disso? Não acrescentou nada à notícia. Não esclareceu, não elucidou, não informou e não ajudou. Muito pelo contrário. Inúmeros casos ocorrem em que filhos biológicos cometem atrocidades, mas nunca se faz referência a essa condição.
Em 2002, Suzane Richtofen arquitetou o assassinato dos próprios pais, e a questão de ser filha biológica não foi levantada - e nem deveria. Por outro lado, ser pai ou filho adotivo nos casos de crimes fantásticos é mencionado de rotina nos meios de comunicação. Trata-se única e exclusivamente de um preconceito. E preconceito que é alimentado toda vez que o fato vem à tona. Certamente faz algumas pessoas hesitarem na hora de adotar um filho. Além disso, atinge a todos os adotivos, particularmente aqueles que estão começando a lidar com esse importante aspecto de suas vidas; que estão formando suas personalidades, época de questionamentos inimagináveis para a maioria das pessoas.
No Brasil não é permitido colocar o termo "adotivo" no registro de nascimento de qualquer pessoa. O mesmo deveria ser feito com relação a determinadas notícias que são veiculadas nos meios de comunicação. Enquanto isso não acontece, toda a mídia poderia refletir e fazê-lo por conta própria. Os filhos e pais adotivos agradeceriam a iniciativa.
Também estranhei a divulgação pela mídia do fato de ser o autor da chacina de Realengo filho adotado. O despreparo de alguns jornalistas é fato marcante. Infelizmente nosso espaço para reclamar, reagir e quem sabe corrigir é muito limitado. Não dá para ficar calado.
Injustiça contra os filhos adotivos
Um crime bárbaro aconteceu no Rio de Janeiro na semana passada. A imprensa correu para mostrar todos os detalhes, e a informação de que seu autor era filho adotivo logo foi dada. Qual a razão disso? Não acrescentou nada à notícia. Não esclareceu, não elucidou, não informou e não ajudou. Muito pelo contrário. Inúmeros casos ocorrem em que filhos biológicos cometem atrocidades, mas nunca se faz referência a essa condição.
Em 2002, Suzane Richtofen arquitetou o assassinato dos próprios pais, e a questão de ser filha biológica não foi levantada - e nem deveria. Por outro lado, ser pai ou filho adotivo nos casos de crimes fantásticos é mencionado de rotina nos meios de comunicação. Trata-se única e exclusivamente de um preconceito. E preconceito que é alimentado toda vez que o fato vem à tona. Certamente faz algumas pessoas hesitarem na hora de adotar um filho. Além disso, atinge a todos os adotivos, particularmente aqueles que estão começando a lidar com esse importante aspecto de suas vidas; que estão formando suas personalidades, época de questionamentos inimagináveis para a maioria das pessoas.
No Brasil não é permitido colocar o termo "adotivo" no registro de nascimento de qualquer pessoa. O mesmo deveria ser feito com relação a determinadas notícias que são veiculadas nos meios de comunicação. Enquanto isso não acontece, toda a mídia poderia refletir e fazê-lo por conta própria. Os filhos e pais adotivos agradeceriam a iniciativa.
O bullying na mídia
A chacina de Realengo levou o bullying para a mídia com intensidade. Isso é bom para repercutir o episódio e divulgar o tema para toda a sociedade. Mas é necessário atentar para o fato de o bullying sofrido na infância e juventude pelo homem de 23 anos que assassinou a tiros 12 crianças, é um dos fatores causais. É necessário antes de tudo dar destaque ao fato de um doente mental como ele não ter sido nunca tratado. As autoridades não podem fugir dessa realidade e a sociedade tem que ser informada da realidade. De toda forma a divulgação do bullying é fundamental para que as escolas sejam levadas a realmente se informarem sobre o assunto e se responsabilizarem pela prevenção, antes de tudo, e pelo combate ao bullying. Hoje em O Globo podemos ler a reprodução de frase do assassino: "A luta pela qual muitos irmãos no passado morreram, e eu morrerei, não é exclusivamente pelo que é conhecido como bullying". Também em O Globo o colunista Zuenir Ventura escreve sobre a tímida existência de prevenção do bullying nas escolas: "Fala-se pouco em combater, por meio de um controle rígido com inspetores e câmeras, esse provedor de ódio que é o bullying". Não dá para ficar calado.
terça-feira, 12 de abril de 2011
Pesquisa da ABRAPIA sobre bullying
Em 2002, a ABRAPIA (Associação Brasileira Multiprofissional de Proteção à Infância e Adolescência) aplicou uma pesquisa sobre bullying na cidade do Rio de Janeiro, envolvendo
5.337 alunos da 5ª à 8ª série do Ensino Fundamental de 11 escolas, sendo que 9 públicas e 2 particulares.
A qualidade técnica da pesquisa foi garantida pela participação do IBOPE.
Certos do pioneirismo da divulgação do tema bullying no Rio de Janeiro, e talvez no Brasil, e da importância daquela pesquisa também pioneira no Brasil, a equipe coordenada pelo Dr. Aramis Lopes Neto dedicou-se apaixonadamente ao trabalho. O resultado do amplo trabalho realizado foi publicado no livro (esgotado) "Diga NÃO ao bullying".
Não dá para ficar calado.
Hoje que estamos sendo intensamente procurados pela imprensa sobre o tema bullying e sobre o resultado da pesquisa, acho oportuno dar algumas informações básicas. Os resultados da pesquisa estão divulgado no site Observatório da Infância (http://www.observatoriodainfancia.com.br/).
Repassamos aqui apenas alguns dados da pesquisa para estímulo dos que se interessarem.
A idade média da população avaliada foi de 13,47 anos. Admitiram ter sido alvos de bullying 16.9%. 57% admitiu ter sido testemunha do bullying. Na pesquisa praticamente não houve predomínio de sexo. Ao contrário de outras pesquisas o local mais frequente para a prática do bullying foi a sala de aula (60.2%). Os tipos mais frequentes de bullying foram apelidar (54.2%) e agredir (16.1%).
Além do pioneirismo da pesquisa cujos resultados levaram ao início de uma divulgação intensa pela mídia brasileira do tema , hoje já impregnado na sociedade, é importante destacar o aspecto universal dos resultados. O bullying é universal e independe do país , da classe social ou das condições econômicas.
Reforço aqui o que tenho dito: o bullying escolar (school place bullying) ocorre na escola e é lá que tem que ser prevenido antes de tudo e tratado. Todas as crianças têm o direito de ter uma infância feliz e faz parte dela boas recordações da escola.
Não dá para ficar calado.
Tabagismo: uma doença pediátrica
O médico oncologista, do INCA, Roberto Gil, escreveu importante artigo que foi divulgado hoje 12/4 em O Globo. No artigo o médico desafia a sociedade a entender o mal que o tabaco faz a todos e à nossa infância e adolescência em especial. Afirma ele com conhecimento que o grande alvo da propaganda do fumo pela indústria tabagista são os jovens. Isso é perverso! Na medida em que adultos já conscientes do mal causado pelo fumo deixam seu vício a indústria criminosamente conquista os jovens consumidores. O tabagismo é um vício com enorme poder de destruição da saúde. Não permita que seu filho seja alcançado pela indústria tabagista ávida de lucros a qualquer preço. E para nós pediatras fica o desafio de ajudarmos a prevenir a série enorme de doenças causadas pelo vício de inalar substâncias tóxicas e comprovadamente cancerígenas. Não dá para ficar calado.
segunda-feira, 11 de abril de 2011
Entrevista de psiquiatra americano sobre violência nas escolas
O jornal O Globo publicou em 10 de abril uma importante entrevista com o psiquiatra americano Frank Ochberg, consultor do FBI e que orientou a direção da escola Columbine após o massacre 1999.
Sua fala é uma excelente orientação para as autoridades e os formadores de opinião aqui no Brasil, após a chacina de Realengo. Destacamos alguns pontos:
"Em todos os países do mundo a escola é segura, e mesmo a chance de ser morto pelo ataque de um psicopata é mais provável longe da escola".
"Temos que criar uma cultura de confiança e deixar para trás o código de silêncio que faz com que os alunos nunca relatem problemas ou situações de perigo a um adulto. Esta foi uma das grandes mudanças nos EUA após Columbine."
"Os detectores de metal são exceção. Em geral, aqui nos EUA, a resposta a esse tipo de incidente foi mais ampla, mais humanista."
"Se os procedimentos preventivos ajudarem a lidar com o bullying, já é uma boa coisa. Pode não prevenir chacinas, mas é uma boa coisa."
Não dá para ficar calado.
Sua fala é uma excelente orientação para as autoridades e os formadores de opinião aqui no Brasil, após a chacina de Realengo. Destacamos alguns pontos:
"Em todos os países do mundo a escola é segura, e mesmo a chance de ser morto pelo ataque de um psicopata é mais provável longe da escola".
"Temos que criar uma cultura de confiança e deixar para trás o código de silêncio que faz com que os alunos nunca relatem problemas ou situações de perigo a um adulto. Esta foi uma das grandes mudanças nos EUA após Columbine."
"Os detectores de metal são exceção. Em geral, aqui nos EUA, a resposta a esse tipo de incidente foi mais ampla, mais humanista."
"Se os procedimentos preventivos ajudarem a lidar com o bullying, já é uma boa coisa. Pode não prevenir chacinas, mas é uma boa coisa."
Não dá para ficar calado.
Wellington não foi o único doente mental sem tratamento no Brasil
Não é necessário fazer a dissecação do tema à exaustão para se concluir, por tudo que a mídia divulgou com detalhes, que o assassino de 12 crianças em escola no Realengo, era um psicopata não tratado em nenhum momento de sua vida de 24 anos.
Por que ele não foi tratado? Essa é a grande questão que envolve a responsabilidade da sociedade e sobretudo dos governos. Tudo indica que ele sofreu bullying na escola. Que sua mãe era alcoólatra e o abandonou. São múltiplas situações de perdas e de agressões com as quais ele conviveu durante toda a infância e adolescência.
Mas todas essas perdas não explicam e muito menos justificam a chacina. De nada adianta autoridades o classificarem de animal ou monstro. Não adianta responsabilizar as armas de fogo. São manobras diversionistas que desviam realmente a atenção de todos do problema maior: a inexistência de acesso, precoce e continuado, ao tratamento psiquiátrico, para todos os que dele precisam no Brasil. Talvez essa tragédia não tivesse ocorrido.
Não dá para ficar calado.
Por que ele não foi tratado? Essa é a grande questão que envolve a responsabilidade da sociedade e sobretudo dos governos. Tudo indica que ele sofreu bullying na escola. Que sua mãe era alcoólatra e o abandonou. São múltiplas situações de perdas e de agressões com as quais ele conviveu durante toda a infância e adolescência.
Mas todas essas perdas não explicam e muito menos justificam a chacina. De nada adianta autoridades o classificarem de animal ou monstro. Não adianta responsabilizar as armas de fogo. São manobras diversionistas que desviam realmente a atenção de todos do problema maior: a inexistência de acesso, precoce e continuado, ao tratamento psiquiátrico, para todos os que dele precisam no Brasil. Talvez essa tragédia não tivesse ocorrido.
Não dá para ficar calado.
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